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30/06/2008 13:07
Os cavalinhos de Platiplanto - J. J. Veiga
A infância é o período da vida de maior fertilidde criativa. As brincadeiras, os jogos e as diversões são a prova de que vivemos para a imaginação, para o livre jogo nas interações interpessoais. E é justamente a esta fase de nossas vidas que o autor nos remete, inundando a linguagem daquele sentido tão caracaterístico dos primeiros anos. O menino, cujos devaneios projetam uma realiade paralela, só dele, tem na figura do avô o grande inspirador e realizador de seus anseios. A promessa recebida do neto será o estopim de uma viagem onírica, que o acompanhará até a fase adulta, quando então entra em cena a memória.
Neste ponto, não seria demais uma pequena remissão à Proust, cuja força literária resultava da busca incessante das recordações. A lembrança como personagem principal - que o digam as famosas madeleines.
O autor busca no tempo vivido a matéria com a qual irá desfiar seus anos de infância. O menino que venera o avô generoso será o adulto que lançará sua âncora no passado. Passado este vivido em meio a brincadeiras e sonhos, alguns bastantes surreais.
Talvez o autor, à época do conto, não se desse conta da angustiante realidade da vida moderna, com seu hiperrealismo asfixiante e embrutecedor, mas certamente já intuía para onde caminhava a humanidade. Na década de 50, a teoria freudiana ainda causava um certo frisson nos meios intelectuais, principalmente no que se referia aos limites entre sonho e realidade. Uma frase de Freud talvez sintetize o espírito da época: "A realidade destina-se àqueles que não podem suportar o sonho."
O conto é como uma abertura, um brecha em meio à ausência de sonho no mundo atual; é uma espécie de orifício,por onde podemos resgatar aquilo que a realidade insiste em nos tirar: a nossa capacidade de fabular, de criar universos onde o tempo não existisse; onde estariam suspensos todos os interditos da vigília, todos os juízos incapacitantes da criatividade.
enviada por joserubensjr
23/06/2008 16:43
Votei!
Pois é, estou de volta. Vamos ver no que vai dar esse retorno, espero que seja produtivo e que crises de criatividade não me assaltem mais.
enviada por joserubensjr
02/02/2007 13:28
A velhinha assassina.
Para os aficcionados pelo cinema, a cena daria um ótimo enredo, bastaria o enquadramento correto, a luz necessária e pronto. Não precisaria nem de som, pois os gestos dizem tudo.
Que cena é esta? Vamos a ela.
Chego ao meu escritório por volta das oito da manhã. Ligo os computadores, recolho a perciana e abro a janela de vidro. Da minha sala vejo os fundos de um prédio residencial. No segundo andar, na altura da sala, observo uma velhinha ajudando na cozinha. Sim, é neste apartamento que se desenrola a cena.
A velha parece diligente nas suas tarefas; corta com destreza os alimentos e lava as louças de modo ágil. Ao seu lado, sempre portando uma enorme faca, uma outra mulher a ajuda.
Quase nunca ouço um pio sequer da velha, ela parece compenetrada em seus afazeres, sempre de cabeça baixa, com os enomres óculos apoiados na ponta do nariz. Já a outra mulher tem a voz estridente e solta vigorosos gritos, sempre em direção à velha, gesticulando incessantemente com a faca na mão. Às vezes penso que ela irá esfaquear a pobre e indefesa velha, tanto são seus gritos e os gestos ameaçadores.
A velhinha ouve tudo com resignação, em silêncio, sem parar de realizar suas tarefas. Enquanto os gritos, os xingamentos e os golpes da faca no ar vão aumentanto, cada vez menos a velha parece se perturbar. Dá vontade de gritar do meu escritório: "Ei! Voce pirou? Tá doida? Vou chamar a polícia, viu!"
Bem, fico só na vontade, pois sei que em briga de vizinhos o bom senso e a prudência mandam mantermos distância. Mas outro dia, com o pensamento perdido em meio aos gritos e já irado com aquela situação, fiz a seguinte conjetura: "E se a velhinha, num acesso de fúria icontida, empunhasse uma daquelas facas de cozinha e enterrasse no bucho daquela vaca? Eu certamente gritaria daqui: 'Valeu! Isso mesmo! Enfia mais..." O telefone tocou e o pensamento se desfez.
As duas continuam lá. Todos os dias o ritual se repete: gritos, xingamentos, ameaças e o que é pior, aquela enorme faca vibrando no ar, em direção à cabeça da velhinha.
enviada por joserubensjr
16/01/2007 14:51
Os anos de aprendizagem
Ainda era possível atravessar o Bosque dos Buritis à noite, sem medo de assaltos. Às nove da noite, os carros sumiam da avenida Tocantins, somente os ônibus davam o ar da graça, até por volta da meia-noite. Da janela do meu quarto, via-os passar e dirigia o olhar para a saída do escapamento para ver as fagulhas sendo expelidas.
A república da "dona" Maria ficava na av. Tocantins, acima da Radelgo (lembram-se?). Cheguei a "hopedar" em quase todos os quartos. Detestava os que davam pra rua, pois o barulho e a fumaça eram um tormento indescritível. As roupas, os livros, o piso de madeira, tudo ficava impregnado de uma fina camada de poeira preta.
Foram anos de muita farra mas, ao mesmo tempo, de muito estudo. Eu era o caçula, tinha treze anos e ainda usava aqueles pijamas de malha da Hering de mangas compridas. Às sete e meia da manhã já estava no Colégio Ateneu Dom Bosco, de onde saía somente às doze. As tardes eram reservadas aos estudos.
Foram anos de muito aprendizado, principalmente para um menino que sempre havia sido criado, como se diz, na barra da saia da mãe. A comida era ruim, a roupa de cama ficava sempre encardida por causa da fumaça, não tínha televisão nem grana pra ir a lugar algum. O cinema só era possível se deixasse de lanchar na escola durante a semana. O shopping center ainda não exercia tanta atração sobre as pessoas. Além do mais, não tinha dinheiro nem pra um lanche, ali tudo era (é) muito caro.
Os raros fins de semana passados na capital eram o que havia de mais monótono e tedioso. Simplesmente ficava trancado no quarto, lendo ou estudando. E o que é pior: sem TV!
Mas foi ótimo, pois aprendi a cultivar um hábito do qual muito me orgulho, e do qual pude extrair muitos ensinamentos: a leitura. Hoje, mesmo tendo TV, DVD e alguma renda pra ir a um shopping, nenhum desses atrativos me seduzem mais do que ler um bom livro.
enviada por joserubensjr
15/01/2007 14:37
Falha técnica.
Sem inspiração!
enviada por joserubensjr
04/01/2007 14:32
De tragédias e mortes.
Quando pequeno, lembro-me de ter ido a um velório justamente no momento em que uma pequena cadela, no cio e acompanhada de quatro cachorros, entrava na sala onde o defunto estava. Em meio ao choro compulsivo da viúva, podia-se ouvir alguns risos abafados ante daquela cena curiosa de sexo canino debaixo do caixão. Depois de alguns chutes e pontapés, os animais foram para rua, enquanto a compostura e o tom grave voltava a reinar nos rostos dos presentes.
O contraste na reação das pessoas na cena acima mostra como é ridículo rir quando a ocasião exige chorar. O exemplo vale para essa alegria artifical (ou artificiosa?) que as TV's querem repassar ao povo no fim de ano, quando, na realidade, só temos motivos de choro e lamentações.
Já em fins de dezembro já não havia clima, tanto no país como no mundo, que justificasse aquela baboseira da TV Globo de mostrar seus funcionários sorridentes, vestido de branco, de mãos dadas entoando aquele velho e ridículo hino da emissora (Hoje é um novo dia/ de um novo tempo...). O resultado das urnas (que tornou nítido o grande fosso social do país) ainda ecoava nas conversas de rua e a intrépida Vênus Platinada lá estava, arregaçando as mangas e tratando de embotar a consciência da população, botando no ar aqueles clipes idiotas.
O ano de 2007, ao contrário do que prega a musiquinha da Globo, já começou macabro e velho, sob o signo da vingança, com a exibição (espetacular, diria Bush Jr.) do vídeo do enforcamento de Saddan Hussein. O Ano-Novo foi brindado com um exemplo da velha e inumana lei de Talião (dente por dente, olho por olho).
Ainda nos estertores de 2006, a população do Rio de Janeiro pode sentir o espectro da morte depois que bandos do crime organizado atearam fogo em ônibus, matando várias pessoas.
Pois é, mas a mídia vive do espetáculo, do engodo, da empulhação e da mentira, mesmo que para isso tenha que lançar mão daqueles risinhos cínicos e forçar a barra naquelas mensagens ridículas, nas quais somos levados a crer que no próximo ano tudo estará resolvido, basta querer. Quanta estupidez!
enviada por joserubensjr
02/01/2007 14:15
Lula x Mídia
Sempre empenhada em abalar o governdo do presidente Lula, a mídia nativa, em sua grande maioria, simplesmente ignorou a festa da posse, ontem em Brasília.
O que mais chamou a atenção no discurso presidencial foi o tom duro com que se referiu aos pretensos manipuladores da opinião pública. Disse que o povo aprendeu a dizer "não" àqueles que sempre lhe impunham um caminho a seguir, pois preferiu dar as costas ao voto de cabresto e votar de acordo com sua consciência.
No caso específico, o cabresto é representado pelos meios de comunicação do país e suas campanhas pouco subliminares em prol da derrocada do governo lulista.
A mídia nacional, em sua grande e substanciosa maioria, fez uma campanha sórdida contra o presidente Lula, jogando no lixo os mais comezinhos princípios éticos do bom jornalismo. O golpe era o objetivo a ser alcançado.
Para concretizá-lo, a Veja não se furtou nem mesmo a inventar fatos (dólares de Cuba), na vã tentativa de desmoralizar o partido do presidente.
Por fim, diante do fato cru da reeleição, a mídia então aderiu ao discurso preconceituoso e elitista de setores da intelectualidade, incumbidos da tarefa de desqualificar os votos do presidente reeleito ao dizer que os mesmos foram provenientes dos grotões do país. Ou seja, o presidente Lula fora reeleito com o voto dos pobres e miseráveis.
Nos poucos canais que trasmitiam a festa da posse, nenhuma referência às críticas do presidente Lula aos "formadores de opinião" do povo. As análises dos comentaristas passaram ao largo, mais preocupadas em evidenciar o contraste de público com a festa da primeira posse, em 2003.
No momento em que o presidente Lula, do parlatório, falava ao público que o aguardava de frente ao Palácio do Planalto, a Globo exibia um dos programas mais chatos e alienantes da TV brasileira (Malhação).
enviada por joserubensjr
22/12/2006 15:37
Fé x Razão
Os embates entre a fé e a razão são tão antigos quanto o próprio homem. Desde que ele passou a buscar uma explicação para o mundo que o cercava, tanto a fé quanto a razão se apresentaram como portadoras da verdade. A busca por um sentido para a existência sempre despertou a curiosidade humana. Até a Idade Média, a revelação desse mistério ficara a cargo da teologia católica, a qual se valia da sua autoridade tanto espiritual quanto temporal para fazer valer a sua verdade. Neste período, houve uma tentativa de se conciliar fé e razão por meio da filosofia de Tomás de Aquino, cujo objetivo era adaptar a doutrina católica á filosofia aristotélica. Com o advento do Renascimento, o homem foi colocado no centro do Universo; uma mudança radical se processou no pensamento da época, pois vários tabus foram caindo: as navegações e a descoberta de novas terras; o fim da teoria heliocêntrica; a invenção da imprensa por Gutemberg; a Reforma protestante; etc. Parecia que a razão finalmente havia vencida a batalha contra a fé. A ciência tornou a vida mais confortável e mais longa, encurtou distâncias, trouxe um progresso jamais imaginado em toda a história da civilação.
Hoje, ao contrário do que se poderia projetar naquela época, mesmo tendo a ciência dominado nosso cotidiano, mais do que nunca os embates entre fé e razão se fazem presentes no dia-a-dia.
E é justamente este o embate que se dá em São Manuel Bueno, mártir, obra escrita em 1930 pelo romancista espanhol Miguel de Unamuno. Católico fervoroso, Unamuno se vale de um suposto relato que lhe havia sido repassado por Ângela Carballino (por sinal uma das personagens) para inciar a narrativa. A história se passa numa cidadezinha do interior da Espanha, onde um jovem pároco (Dom Manuel) administra zelosamente a fé católica aos seus habitantes. Os rudes moradores jamais tiveram motivos para duvidar da fé professada pelo guia espiritual de suas almas. O padre se envolve pessoalmente nas obras da paróquia: cuida dos doentes, acolhe os miseráveis e conforta os desesperados.
Tudo vai bem, até que a adolescente Ângela é tomada por súbitas dúvidas acerca da vida eterna, um dos dogmas do catolicismo. Ao buscar conforto no padre para seus dilemas epirituais, percebe no seu confessor a mesma dúvida, o que a deixa perplexa e angustiada.
O tom bucólico do vilarejo é quebrado pela chegada do seu irmão, Lázaro, vindo da América. Este traz na bagagem idéias progressistas, com as quais quer tirar os moradores da ilusão da fé religiosa. Mas o carisma do padre logo o traz para junto de si e o faz seguir em sua jornada de ajuda aos habitantes locais. Mas Lázaro também irá descobrir a ausência de fé do padre, o que faz com que este mantenha com os irmãos diálogos bastante francos, por onde expõe suas dúvidas.
O ponto alto da obra é o pedido do padre para que os irmãos mantenham sigilo sobre sua ausência de fé na vida eterna, visando com isso não abalar a fé dos habitantes do lugarejo, já que o padre é maior exemplo de crença na palavra divina. Ou seja, o padre não crê, mas finge crer para que os outros creiam na vida eterna.
Ao final, o que poderia parecer um embuste, um engodo, torna-se uma revelação: é preciso viver a vida em sua plenitude, amar ao próximo, se entregar completamente ao outro sem ficar na esperança de uma recompensa na outra vida. Como dizia o Pe. Antônio Vieira, que viveu no século XVII: "Sabe Deus o quanto de crença há na descrença e o quanto de incerteza reina na fé."
enviada por joserubensjr
20/12/2006 15:52
O Inferno de Sartre
Intelectual engajado, cujos escritos ajudaram a difundir o Existencialismo no mundo do pós-guerra, Sarte tornou-se um dos símbolos do Século XX. Sua participação na Resistência francesa durante a Segunda Guerra foi o estopim para o afloramento de uma literatura que se tornaria reconhecida mundialmente, marcada pelo signo da polêmica por adotar um tom cáustico e cético em relação aos valores da sociedade ocidental.
Sarte enveredou também pelo teatro, onde escreveu obras célebres, como a peça Entre quatro paredes. O enredo estrutura-se no encontro de três personagens (quatro, se incluirmos o Criado) no Inferno. Ao contrário do que nos propõe a alegoria cristã, este Inferno não tem a presença do Diabo, não naquela clássica figura de chifre e tridente em punho. O que seria o Inferno, na peça sartreana é uma sala, sem janelas, com móveis no estilo colonial, um busto de bronze em cima da lareira e três canapés, um para cada "cliente". A luz nunca se apaga. Vive-se um eterno presente.
Na verdade, há um certo espanto inicial, pois os personagens demoram a assimilar que um local tão bem composto, apenas um pouco abafado, possa ser o local onde "viverão" a eternidade. Aliás, por não ter janelas, e por não ter acesso ao mundo, jamais sentirão o transcorrer dos dias, não saberão se é dia ou noite.
Com excessão de Inês - lésbica e ciente dos motivos que a levara até ali -, os outros dois pernsonagens escondem covardemente as mazelas que os condenaram ao Inferno; usam da mentira, do cinismo e do engodo na tentativa de encobrir os erros cometidos.
A relação entre os três vai se tornando tensa; a inveja e a traição são as ferramentas manejadas na inútil tentativa de se colocar um pouco de ordem no ambiente. A razão é sufocada pela pressão psicológica exercida pelos tormentos de cada um, cujo ponto culminante é a vã tentativa de Estelle em matar Inês. Mas isto já não é mais possível: os mortos não podem mais morrer.
Ao final, Gacin, o personagem masculino, diante do horror da constatação de que aquele ambiente conflitivo será eterno, chega à frase-síntese da peça, e que ficou famosa pelo mundo todo: "O Inferno são os outros".
enviada por joserubensjr
19/12/2006 09:56
A leitura das urnas.
O grande perdedor das últimas eleições presidenciais não foi o Alkmin. Muito pelo contrário, ele ganhou uma visibilidade nacional que jamais teve, mesmo sendo governador de São Paulo. Mas quem perdeu mesmo foi a mídia, a grande mídia. Todos apostaram e, mais que isso, empreenderam uma verdadeira cruzada contra o voto no presidente Lula. Bastava ler os editoriais dos jornalões para se ter a noção exata do quanto estavam empenhados em eleger o homem da Opus Dei.
Nestes últimos dias, em que a indignação nacional está voltada para o vergonhoso aumento de 91% nos salários de nossos parlamentares, e diante do destaque que a imprensa em geral está dando ao caso, me pus a fazer algumas conjecturas, cujo resultado sempre desemboca numa única certeza: a deposição do Presidente da República.
Veja bem, se um deputado federal da oposição (mais precisamente do PSDB do Norte), eleito com pouco mais de 8 mil votos, está se auto-concedendo um salário de 24,5 mil reais, por que o presidente Lula, eleito com 58 milhões de votos, não pode pleitear um aumento salarial, já que o atual é de 8 mil?
Essa distorção salarial é inconcebível, uma vez que o cargo de Presidente da República é muito mais importante do que o de deputado federal, pois aquele comanda os destinos de 180 milhões de almas.
Agora, se o presidente Lula abre a boca pra reivindicar, não digo os 24,5 mil dos deputados, mas, digamos, uns 12 mil, com certeza a mídia nativa irá pedir seu impeachment. É essa hipocrisia, essa falta de imparcialidade, esse preconceito, essa visão míope que saíram perdedoras da última eleição.
Durante as eleições o povo não se deixou levar pelo histerismo das manchetes nem pelos editoriais tendenciosos. A cada dia que passa cai a vendagem dos jornais; perderam credibilidade e o respeito do cidadão. Apostaram cegamente no seu suposto poder de influenciar as pessoas, mas cairam do cavalo: o povo tem consciência e autonomia, não precisa de intermediários que o conduzam pelo cabresto. Essa é a leitura das urnas.
enviada por joserubensjr
14/12/2006 12:57
Sol e mar.
Basta uma rápida passagem pelos shoppings da cidade para que as atenções se voltem às enormes árvores de natal, salpicadas de "neve", e no grotesco Papai Noel, esparramado no seu indefectível trenó. O que é um trenó? "É uma carroça sem rodas, puxada por um monte de veados", ouvi um dia. Mesmo que o intenso calor e as torrenciais chuvas de verão estejam a recomendar picolés e camisetas, a elite nativa insiste em meter goela abaixo do povão uma tradição nórdica que em nada lembra nossa cultura, nossa realidade e o nossas heranças ibéricas e africanas de celebrar o Natal. Só mesmo em países colonizados, como o nosso, é que se insiste nesta simbologia ridícula e sem sentido que invade o imaginário coletivo. Há os que chegam a sonhar com a possibilidade de nevar nos trópicos, só pra dar o "gostinho de primeiro mundo", dizem.
Enquanto os da colônia ficam babando diante daquela alegoria sufocante e inverossímel, os da metrópole sonham com o sol, a praia, a liberdade e o ar puro que nos presenteia os 365 dias do ano. Já são mais de 500 anos de nação e ainda vivemos como se fôssemos estrangeiros na própria terra. É por isso que eu digo: êta povo bôbo!
enviada por joserubensjr
13/12/2006 13:08
Gosto se discute.
"Não li e não gostei". Foi essa frase, dita por um crítico literário, que despertou em mim a curiosidade de ler Paulo Coelho. Mesmo já sabendo da péssima acolhida que suas obras tiveram (e têm) no meio acadêmico, resolvi pagar para ver. Comprei 'Onze minutos' e parti para o tira-teima.
A narrativa gira em torno da história de Maria, a protagonista que vive o eterno drama da moça do interior, ingênua e sonhadora, que almeja desbravar e conhecer o mundo. Após se deitar pela primeira vez com o namorado, viaja ao Rio e lá conhece um homem que a levará à Suíça com a promessa de um bom emprego e bons salários. Até aqui, qualquer leitor de jornal já saberá o que irá susceder à personagem. Chegando lá, ela descobre que foi enganada, que o emprego é de prostituta e os bons salários dependerão do seu esforço e astúcia, requisitos que a profissão exige.
Na cidade de Genebra tem início uma nova fase em sua vida, com o relato das duras condições a que é submetida e das inflexíveis regras que tem que seguir para poder conseguir clientes. A narrativa é em terceira pessoa mas, ao final dos capítulos, dá lugar às impressões pessoais que Maria anota em seu diário, onde deixa registradas suas impressões do mundo, as decepções, as esperanças, os sonhos, etc.
O final não surpreende, pois desde as primeiras páginas temos a nítida impressão de que ele vem sendo anunciado tal qual o imaginamos. Uma inesperada amizade com um cliente rico e famoso desemboca num amor platônico que irá resgatá-la daquela vida abjeta, quando então realiza seu grande sonho: poder voltar à cidadezinha do interior do nordeste e recomeçar uma nova vida com o dinheiro amealhado no infame ofício, quando então seus pecados serão redimidos pela família e amigos que deixou.
O leitor pode estar se perguntando: "De onde vem o título da obra?". Onze minutos era o tempo que ela tinha para fazer o cliente chegar ao clímax, só isso.
Bom, agora, diferentemente do crítico literário, posso dizer que li pelo menos uma obra do Paulo Coelho. Li e não gostei.
enviada por joserubensjr
11/12/2006 17:11
Viva la muerte!!!
A morte sempre foi encarada com tristeza. O choro, a dor e o desespero pela ausência são marcas registradas.
Entretanto, parece que o passamento do ex-ditador Augusto Pinochet tem servido para inverter essa visão.
A julgar pelas manifestações, não só na capital, Santiago, mas em todo o mundo, essa morte nunca foi tão esperada, com gritos e rojões a espoucarem pelos céus, comemorando o fim do General.
Os números giram em torno de 4 mil. As vítimas eram jogadas vivas de helicóptero no mar ou executadas a sangue frio no Estádio Nacional.
Aí vem os cínicos da Globo e dizem isso tudo, mas aliviam com os números da economia. "Sim, ele foi um ditador, executou milhares e perseguiu outros tantos, mas deixou a economia do país muito bem..." É mole?
Ou seja, na visão da Globo alguns pontinhos a mais no PIB e pronto, está aberta a passagem ao Purgatório para as almas de dirigentes assassinos, homicidas e violadores dos direitos humanos.
Para a maioria do povo chileno, a alma do ditador deveria queimar eternamente nas profundezas do Inferno, tal qual aquela alegoria tão bem imortalizada por Dante Alighieri em sua Divina Comédia.
Aqui em Pindorama, FHC teve a infelicidade de decretar luto oficial pela morte do ex-presidente Ernesto Geisel, cujo governo foi marcado por forte repressão política, inclusive com violação a direitos humanos.
E olha que FHC não é um ex-metalúrgico sem dedo que chegou à Presidência da República, ele é considerado o "Príncipe dos Sociólogos". Fico imaginando do que ele seria capaz se fosse um ex-metalúrgico na Presidência.
No Chile, a presidente Michele Bachelet não deu a mínima, e decretou: velório sem honras oficiais. E ponto final.
enviada por joserubensjr
08/12/2006 12:10
Tá servido?
Frango caipira ao molho com açafrão, bastante salsinha, cebola, alho e pimenta-de-cheiro; arroz com milho, pequi e quiabo afogado. Cerveja gelada e aguardente do norte de Minas não podem faltar. Para tiragosto, porções generosas de batata frita e torresmo com mandioca. Tudo, claro, feito no fogão a lenha, em panelas de ferro e sob a sombra da generosa pata-de-vaca. Envoltos naquelas generosas baforadas de fumaça e do aroma da comida, somos protagonistas de uma cena rara nos dias de hoje. Tem também a soneca, curtida nas redes armadas na varanda. É assim que a família costuma celebrar alguns domingos.
Alguns acharão meio careta, mas penso que nesses tempos bicudos, poder reunir a família no domingo, ao redor de um fogão a lenha, para saborear um legítimo frango caipira, é algo que me permite dizer: "Sou um privilegiado."
PS. Ah, tem sobremesa também: requeijão caipira derretido, coberto com açúcar.
enviada por joserubensjr
06/12/2006 10:11
O chifre de ouro. Parte III
Mesmo agastado pelas ameaças do padre e pelo calor escaldante da tarde, não se deixava incomodar. Nem mesmo os apelidos que lhe eram dirigidos na rua - "rolha de poço!", "baleia branca!" - o perturbavam. Seus pensamentos passavam ao largo daquela gente e daquele lugar, percorriam vastos períodos do passado, quando então aportavam na sua infância. Era ali que sempre se refugiava quando a angústia principiava a invadir sua alma.
As recordações da criança alegre e peralta haviam se tornado sua ilha, seu refúgio particular, de onde buscava forças para suportar uma vida de privações materiais, de dor física e de tormentos espirituais. Jamais acreditou numa única palavra do padre sobre o candelabro. Sabia que em toda a Bíblia não havia uma única passagem proibindo seu uso. Mesmo assim, as ameaças o atormentavam, supunha que cedo ou tarde elas tomariam corpo, já que o padre não era dado a ameaças vazias. Sabia o quanto aquela batina preta podia influir no ânimo e nas ações da população local, sempre temerosa da ira divina.
Ainda guardava na memória o dia em que a polícia fora chamada para fechar o prostíbulo que funcionava na casa ao lado. Os soldados quebraram tudo, jogaram as camas e os colchões na rua e atearam fogo. Logo em seguida veio o padre, acompanhado de dezenas de fiéis, rezando o Credo e aspergindo água benta nos cômodos da casa. Alguns, tomados de grande indignação, amaldiçoavam as putas e atiravam-lhes sal grosso, bradando passagens bíblicas que condenavam a mais antiga das profissões. Desesperadas pela fúria cristã, foram se refugiar na enorme e sombria casa de Simão, o Beato, que as recebeu de braços abertos. Permaneceram ali por dois anos. Foram dias felizes, nos quais o velho ermitão pode enfim ver a casa respirar, as roupas sempre limpas, a comida feita com capricho, o jardim florido e dar muitas risadas. Simão, o Beato se deleitava com as confidências de alcova das putas. Havia a lista dos brochas, dos chifrudos, dos que prometiam tirá-las daquela vida e jamais retornavam, dos inadimplentes e dos generosos. A estes eram reservadas as mais recentes aquisições da casa.
Depois que Simão, o Beato teve sua minguada aposentadoria retida por conta da pressão do padre junto ao banco, as putas fizeram as trouxas e partiram, sem outro destino que não o primeiro cabaré que as acolhesse. Ao se despedirem, deixaram sob o travesseiro do velho ermitão uma extensa lista com o nome dos antigos clientes, seguidos das respectivas características. Beijaram carinhosamente sua face e seguiram pela rua deserta, aproveitando a escuridão da madrugada para não dar azo a mais maledicências.
Essas recordações sempre lhe traziam abundantes lágrimas, quando então, com a mão trêmula, esfregava o lenço armafanhado e encardido pelo rosto, voltava a soluçar baixinho e punha-se a rezar o terço, rogando a Deus pela felicidade e saúde das meninas.
enviada por joserubensjr
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